segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Catumbi, agora parece que vai?

Lâmina projetada pelo escritório Niemeyer para a Brahma
Antiga Fábrica da Brahma no bairro do Catumbi - Rio de Janeiro

O Catumbi é um bairro longa e continuamente desestruturado. Já em 1980 o urbanista Carlos Nelson F. dos Santos escreveu o excelente livro “Quando a Rua vira Casa”, em que retrata as conseqüências para os moradores das demolições ali realizadas para a construção do viaduto de triste nome (31 de março) que liga o Túnel Santa Bárbara à Área Portuária. Em 1984 foi construído o Sambódromo, que consolidou a separação entre os dois lados do bairro: aquele junto à encosta de Santa Teresa e o restante, nas proximidades do Cemitério do Catumbi e do Presídio da Frei Caneca. Em brilhante artigo de página inteira no antigo Caderno B do Jornal do Brasil o urbanista Augusto Ivan de Freitas Pinheiro analisou esta ruptura.


Mais tarde o presídio foi desativado e integralmente demolido. Ao contrário do ocorrido no Carandiru em São Paulo, onde dois pavilhões foram mantidos e ganharam novos usos, do Frei Caneca não sobrou nada, apenas o portal desconectado do contexto original. Prometia-se a construção de edifícios residenciais e havia a esperança de que um bom projeto fosse escolhido. Vã esperança. O projeto edificado é do gênero Minha Casa Minha Vida, cuja implantação e tipologia não têm qualquer possibilidade de integração com a arquitetura do bairro.

Conjunto habitacional no terreno do antigo presídio da Frei Caneca
O último golpe veio com a demolição da Fábrica da Brahma, imóvel que era parte da área de ambiência do tombamento do Sambódromo. Com os órgãos de tombamento pressionados pelos governantes, a demolição foi aprovada. Assim, foi possível concretizar-se uma operação financeira, cujo balanço não ficou muito transparente. A cervejaria pagou a construção de mais um trecho do Sambódromo e em troca ganhou o direito de demolir sua fábrica para erguer em seu lugar uma lâmina com 80 metros de altura (vinte pavimentos). Ela deverá superar com folga o investimento da companhia.


O edifício projetado por Oscar Niemeyer (mais de seu escritório do que do próprio autor, que já se encontrava bastante doente à época), um objeto prismático de vidros espelhados, se insere como outro alienígena numa área que contava com dezenas de sobrados ecléticos e edifícios da qualidade do Hospital Escola São Francisco da UFRJ. Ao comentar sua construção (O Globo de 01/12/2013), bem como o potencial da área para o mercado imobiliário, o presidente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, que deveria trabalhar pela proteção do Patrimônio, se entusiasma dizendo: Agora parece que vai! E assim fica-se sabendo o quão anacrônica tornou-se a proteção de paisagens culturais nesse nosso Rio de Janeiro dos dias atuais.    



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