sexta-feira, 24 de julho de 2026

Uma praça em Pequim

Pequim é uma cidade de mais de 21 milhões de habitantes, em vias de se juntar a outras 11 cidades (Plano de Integração Beijing-Tianjin-Hebei) num aglomerado urbano de 100 milhões de habitantes. O traçado urbano da cidade é um xadrez formando grandes superquadras, que parte da Cidade Proibida em direção às bordas. Anéis rodoviários concêntricos marcam as várias faixas em que se divide a metrópole. Muitas dessas superquadras são ex-hutongs, aglomerados de casas populares, demolidos para a construção de edifícios modernos. 

Por sua vez, essas superquadras contêm em seu interior largas faixas com prédios residenciais, que às vezes se estendem de uma avenida à outra, como condomínios. Ali há uma sensação de estar em pequenos bairros fechados, ou vilas, com vigias nas entradas e restrições à circulação de veículos de não moradores, mas com acesso franqueado a pedestres. Em geral, o comércio se estabelece do lado de fora, nas avenidas. 

No interior de uma dessas incontáveis áreas dentro das superquadras da cidade a vida cotidiana se desenrola pacificamente. Há uma rua central que conecta as duas grandes avenidas que margeiam a quadra, pela qual se pode cortar caminho entre elas, evitando-se o longo percurso até a próxima transversal. Dessa rua central partem ruas transversais, sem saída e mais arborizadas. É na rua central que se encontram o compactador de lixo da quadra, assim como o banheiro público bem cuidado.

A rua central é interrompida por uma praça onde, no verão, há uma infinidade de acontecimentos até tarde da noite. Já bem cedo lá está o grupo de Tai Chi, majoritariamente composto por senhoras de meia idade. Os exercícios, aparentemente, não são difíceis e elas os executam com precisão. À frente está o professor que lidera as sequências já decoradas. Em outro ponto da praça o exercício é mais moderno, acompanhado por música e segue uma coreografia. Entre esses dois pontos há um pequeno grupo de senhoras que realizam exercícios semelhantes ao Tai Chi, também em cadência, mas com espadas, que dão a terminação dos movimentos. 

No centro da praça, mulheres mais jovens passeiam com seus cachorros, idosos em cadeiras de rodas tomam sol, jovens pais passeiam com seus bebês e crianças brincam jogando bola ou correndo. Em áreas cobertas senhores e senhoras jogam carteado de forma ruidosa. Esses formam o grupo mais permanente da praça e serão encontrados ali em diferentes horários. 

É verão na China e o calor é fortíssimo. Então no meio do dia a praça se esvazia um pouco. Restam os velhinhos do carteado que têm uma área coberta para jogar. Chinelos, calças arregaçadas ou bermudas e camisetas enroladas para cima, deixando a barriga de fora, formam o vestuário padrão. O jogo segue animado. 

À tardinha a praça volta a se encher. Agora há um grupo de senhoras que seguem uma aula de dança liderada por três outras senhoras com roupas de ginástica uniformizadas. A dança envolve a formação de trenzinhos em que as participantes devem bater palmas, abrir e fechar os braços e levantá-los acima das cabeças. Logo atrás das instrutoras vão aquelas que melhor conhecem os movimentos. Já na rabeira há uma nítida defasagem do tempo em que a coreografia deve ser realizada. Mas o contentamento é o mesmo. 

Voltam também o grupo de dança mais moderna e as senhoras com cachorros. E há as pessoas que se exercitam sozinhas, fazendo exercícios curiosos, como balançar uma perna sem parar ou se dar soquinhos no peito, nos ombros ou nas costas. Há também senhores que andam dando repetidos soquinhos na barriga. Se a ideia é reduzí-la, não parece estar dando certo. Na quadra de basquete o jogo está animadíssimo.

As crianças jogam bola e essa atividade vai seguir até tarde da noite. O futebol está cada vez mais popular na China. À noite, chegam também homens que se sentam numa mesa da praça para fazer uma conversa de vídeo com algum parente distante, crianças ensaiando instrumentos musicais, e mães que massageiam longamente a palma e os dedos das mãos de seus filhos. 

Bem mais tarde da noite o movimento diminui um pouco, mas não deixa de existir. A impressão que se tem é que as pessoas preferem passar suas horas livres no espaço público do que ficar em casa vendo televisão. A vitalidade dessa praça em Pequim é tudo o que os urbanistas contemporâneos sonham alcançar. Ali já é um hábito, talvez milenar.

Artigo publicado em 24 de julho de 2026 no Diário do Rio. 




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